Os recentes episódios da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito
(CPMI) do Cachoeira nos mostram que, infelizmente, mais uma vez vamos comer
pizza. O deplorável depoimento do governador Marconi Perillo na terça-feira
(12/06), que revelou a mais absoluta falta de vontade não apenas do relator
Odair Cunha, mas também de seus pares, de obter informações a respeito das
ligações do chefe do executivo goiano com o bicheiro Carlos Cachoeira, e a tentativa tácita do interragado de subestimar nossa inteligência e o óbvio dos fatos, são a
prova de que todo o trabalho da Comissão não passa de um teatro.
Os parlamentares fingem que questionam os suspeitos de
envolvimento em esquemas de corrupção, os depoentes fingem que não sabem de
nada, e o povo e os meios de comunicação fingem ter esperança de que dessa vez
será diferente. Balela pura. Ao que parece, um acordo entre PSDB, PMDB, PDT e
PT vai mesmo blindar os governadores e deputados citados em ligações telefônicas
do bicheiro, pois ninguém teria lisura moral suficiente para criticar Cachoeira nem
se esquivar de seus tentáculos.
Em seu excelente artigo na revista Caros Amigos de maio, o
jornalista José Arbex Jr. Faz uma lúcida
análise da situação e mostra que não adianta termos esperança de que dessa vez
será diferente. Ele faz um retrospecto histórico da corrupção no Brasil e
explica que ela está muito mais entranhada em nossas vidas do que imaginamos. Mostra
o quanto ela é endêmica, arraigada e, o que é pior, o quanto já não parece mais
nos causar estranheza. Repetimos o padrão de comportamento da Casa Grande em
relação à senzala.
Citando o brilhante sociólogo Souza Martins, o artigo de
Arbex diz que “corruptos não são apenas alguns. A maioria dos brasileiros, sem
o saber, está envolvida nas tramas da corrupção. É que a corrupção entre nós é
endêmica e histórica, impregnou a cultura do povo e está distribuída por
praticamente toda a esfera pública. Ela se originou no regime patrimonial que
deu nascimento a esta nação: troca de favores materiais por favores políticos, troca
de votos por favorecimentos, fazer política negando a igualdade de direitos, o
voto como bem material e privado e não como direito que encerra deveres para
com o país. A grande corrupção não seria possível se não fosse a expressão da
cultura de uma corrupção miúda e cotidiana.”
Enquanto os parlamentares fazem teatro, sugam a
energia e a esperança do povo, que de tão acostumado a ver episódios de
investigação de casos de corrupção transformados em pizza, fica moribundo e apático, parece não ter mais sangue correndo nas veias.
Um verdadeiro Teatro dos Vampiros, como dizia o sábio Renato Russo:
“(...) Esse é o nosso mundo:
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance.
Ninguém vê onde chegamos:
Os assassinos estão livres, nós não estamos (...)"
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance.
Ninguém vê onde chegamos:
Os assassinos estão livres, nós não estamos (...)"

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